amanhã talvez,

Posso fechar o meu coração? Não deve ser assim tão difícil. Uma vez li um livro em que a personagem principal o tinha feito. Um amigo seu, que era um génio, concedeu-lhe um desejo. Ela pediu-lhe que lhe levasse o coração, o guardasse dentro de uma concha e o escondesse no fundo do mar. O génio assim fez e ela viveu assim durante muitos anos até que, inevitavelmente, como seria de esperar num conto destes, voltou a precisar dele e com meia dúzia de peripécias recuperou-o. Eu também gostava que um génio me levasse o coração e o escondesse. Ah, e até dava menos trabalho que a tal personagem, não o ia querer de volta, não ia precisar mais dele, sei bem que a minha vida não é um conto de fadas. Poder crescer sem coração, quanta facilidade. Não sofrer com as mudanças, as despedidas, os altos e os baixos. Não sofrer com os fins. Detesto fins. Detesto sobretudo quando horas e horas de conversa diárias se tornam em meia dúzia de minutos quando calha. E ainda mais quando o silêncio decide ocupar essa meia dúzia de minutos. Oh, e odeio o facto de hoje ser suposto ter estado contigo mas, mais uma vez, tu não poderes. E, acredita, odeio ainda mais, odeio muito mais quando vejo a nossa amizade dentro de uma bolha de sabão, tão bela e tão incrivelmente frágil, a subir em direcção ao sol e, de repente, a rebentar. A bolha rebenta, a nossa amizade jaz no chão. Realmente, detesto fins. A rapariga que perdeu o coração, era esse o nome do livro.

frio,

Abraço-te mas sinto-te frio. Seguro a tua face entre as mãos como se te tentasse prender a mim e deposito um beijo, um leve beijo triste, nos teus lábios. Não reages. Procuro o teu olhar mas tu fitas o horizonte cinzento e distante por detrás da janela. A tua respiração embacia o vidro que, como tu, está frio. Gelado. Acabas por desviar o olhar daquele horizonte escuro como se despertasses de um sonho querido. Sorris-me, mas o teu sorriso fica prisioneiro na boca, não chegando a alcançar os teus olhos que, vejo agora, estão vazios. Mas afinal o que se passa connosco? 'Nada', respondes-me, 'porque não existe um nós'. O meu coração falha uma batida. 'Sabes bem que um nós não faria sentido, já te disse, ela é que foi o amor da minha vida'. É verdade sim, já mo disseste e disseste-o tantas vezes que estas palavras não deviam ter agora qualquer efeito em mim. Escusado será dizer que continuam a magoar tanto ou até mais do que da primeira vez. Nunca me mentiste nem criaste ilusões. Agradeço-te isso. Às vezes dou por mim a pensar em deixar-te, em sair porta fora sem destino. Às vezes dou por mim a pensar que qualquer amanhã seria melhor que este hoje. Oh, quem é que eu estou a tentar enganar? Nunca conseguiria deixar o meu porto de abrigo. Sim, porque é isso que tu és, o meu porto de abrigo. Ninguém entende. Só eu sei porque é que continuo contigo. É que, sabes, foi contigo que descobri a melhor sensação do Mundo, pelo menos para mim. E por muito frio que estejas, por muito geladas que sejam as tuas verdades, eu serei feliz. Desde que possa adormecer abraçada a ti, tendo a certeza de que, quando acordar, vais estar ao meu lado.

a mudança,

Há algo que me acontece constantemente, sempre. Desde que me lembro que não me dou bem com mudanças. Ainda hoje quando tenho de datar alguma coisa escrevo janeiro e não fevereiro. E muito provavelmente só no fim deste mês é que me vou acostumar a escrever o mês correcto e o pior é que, quando finalmente acertar, o mês vai mudar de novo e vai tudo recomeçar. O que é que fica para trás? Um sem fim de palavras riscadas, por confusão, por distracção, por não me conseguir acostumar. Sou assim em tudo, sempre fui. Fico presa um pouco atrás no tempo, tentando desesperadamente acostumar-me ao novo enquanto, aos poucos, vou largando aquilo que desejava que ainda não tivesse acabado. E o sem fim de palavras riscadas continua. O verão transforma-se em inverno (ou será inferno?), os quinze tornam-se em dezasseis anos, o sol passa a ser chuva. E chuva, logo chuva que me deixa tão triste. Não sei, não faz sentido, mas para mim cada gota de chuva é uma lágrima. Mas quem poderia sofrer tanto ao ponto de chorar assim? Quanta dor por detrás da janela, quanta dor escondida na chuva. E agora até as estrelas me deixam triste, sabes? Desde aquela noite, aquele noite em que olhei para o céu - um céu com tão poucas estrelas - e olhando uma estrela pequenina, parecia encolhida, parecia apagada, parecia ter medo, perguntei, em voz alta, sem ter sequer consciência daquilo que estava a fazer 'E então estrelinha, diz-me, também tu estás a perder a graça que tinhas?' e deixei cair uma lágrima, mais uma que poderia cair do céu, mais uma gota de chuva. E desde essa noite, desde essa estrela, que até o céu é triste para mim. Tornaste-me assim, uma pessoa mais apagada, mais encolhida, parecendo ter medo. É que sabes, 'eu estou a perder a graça que tinha'. Desde que me lembro que nunca gostei de mudanças, muito menos de crescer. E o que é que fica para trás? Um sem fim de palavras riscadas.