coimbra d'um coiso, como diz o nuno

Não gosto de conversas com hora marcada. Criam-se sempre expectativas e, para ser franca, também não gosto muito dessas. Um dia de cada vez, posso preferir as coisas assim, não posso? Nunca te pedi nada, foste tu que fizeste as perguntas todas. As promessas vieram todas desse lado, eu limitei-me a corresponder. O que é muito, juro-te que para mim é muito. Sou uma ilha pequenina. Porque é que as pessoas se apaixonam? Constou-me que conheço o amor por dentro. Também não sei se gosto disso. Ultimamente não gosto de muita coisa. Há dias gostei da ponte Pedro e Inês e do Mondego. Isso assustou-me, até porque não houve muita coisa que me puxasse. Às vezes farto-me, sabes? De mim, de ti, de tudo. E apetece-me fechar-me num casulo e acordar outra, noutro dia. Mas que posso eu fazer? Sou uma Inês pequenina que conhece o amor por dentro. Seja isso bom ou mau. Tenho saudades de poder falar contigo... De chamar por ti e tu vires logo a correr para me dar um abraço, dizer-me que sou bonita e levar-me até casa. Nunca mais me levaste para casa. E descubro-me enroladinha sobre mim, escondida para ver se ninguém me pergunta o que se passa - porque não se passa nada, está tudo bem - e a repetir baixinho 'não é isto que te define, não é isto que te estraga'. E quase faz sentido. Principalmente quando um dos alguéns a quem queria fugir me encontra, se senta ao meu lado e diz 'Eu vou ficar aqui em silêncio, quando estiveres preparada vamos ter com os outros'. E eu limpei as lágrimas teimosas e fui. Fui ter comigo e ser feliz um bocadinho.

muito, meu amor

Quando é que ele chegou? Diz-me. Quando é que ele a viu pela primeira vez? Diz-me. Quando se abraçaram?

Quando é que isto começou?

Isto, o quê?

Isto.

O amor?

Sim, o amor.

O amor?

Sim, pode ser isso. Quando é que o amor começou?

Começou antes de ter começado. Um pouco antes. Nenhum deles soube quando começou. Só se sabe como é depois de já ter começado. Nem se sabe o que é, sabe-se só que já começou.

E depois?

E depois não acaba quando devia acabar. Dura mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.

E então?
E então é assim. Não há muito que se possa fazer. É mais do que suficiente. Tem de se aguentar. Todo o tempo que durar. Sem nunca saber, do princípio ou do fim, pode-se esperar.

Pode-se esperar?

Sim. Pode-se esperar. Sem saber o que se espera. É esse o verdadeiro esperar. Ninguém pode adivinhar o que traz o amor.

Pode trazer tudo. O amor é isso tudo que se deve esperar.

Isso é ainda pior.

É. Não saber dizer o que é. Não haver palavras.

O amor não tem nome, forma ou cor. Vem quando quer. Vai quando não se espera que vá.
Não se deixa adivinhar. Ninguém tem mão no amor.

E então? O que é que tu queres saber?

Eu gostava de saber.

Eu também gostava de saber. Mas o que se sabe é muito pouco. Quase nada.

O amor não começa quando se quer, nem acaba quando se deseja. O amor é forte, destemido, indomável. Se não fosses tu, eu seria outro, dizem-se os amantes: eu quero viver na tua vida. Os amantes adivinham-se sem palavras, olham-se nos olhos à procura, fecham-se em quartos pequeninos. Perdem-se um no outro, agarram-se com toda a força dos dedos e dos braços, beijam-se sobre fundos abismos. O amor sempre mete muito medo. O medo de vir a faltar, depois de tudo ter prometido. Vai, mas não apanhes nenhum frio, e depois volta. Os amantes regressam quando a luz é pouca a um supremo egoísmo. Eu e tu e mais ninguém. O mundo pode desabar, o mar mudar de cor, a lua cair de repente. Só importa o brilho dos teus olhos e o sangue a bater nas minhas veias. Sabe-se lá o amor.

Fica quieto, não faças nada. Ama-me mais e mais, de dia e de noite. O mundo não precisa saber de nada disto.

Pedro Paixão

(criei um novo cantinho, ainda que não tencione deixar a terra do nunca: http://guitarradeilusoes.blogspot.com/)


prometo que depois me calo,

Tenho saudades de deitar a cabeça no teu peito enquanto me dizias que o mundo até era um lugar mais ou menos, e que o dia era mais bonito só por estarmos juntos, e que um dia viriam os putos e encenavas as conversas que terias com eles. Tenho saudades do beijinho que me davas antes de ir dormir, e de quando me levavas a casa, e de quando estava frio e me punha debaixo da tua capa. Tenho saudades de falar contigo pela noite dentro, e do elevador que me assustava, e das promessas que me fazias. Tenho saudades de quando cantavas para mim, e de ver filmes abraçada a ti e de ter medo de não me quereres. Tenho saudades de chegar ao café e passar a mão pelo teu cabelo, e de quando me seguravas o rosto olhando-me nos olhos, e de quando me pedias em casamento. Tenho saudades de ouvir ‘próxima estação Oliveira do Bairro’, e de quando metias conversa simplesmente para falar do tempo e de aparecer com uma camisola igual à tua. Tenho saudades dos domingos à noite, e das gargalhadas inusitadas, e de quando me dizias coisas bonitas. Tenho saudades de sorrir só porque sim, e de me abraçar a ti com força e de me dizeres ‘Inês?’, ao que eu respondia ‘Sim’, ‘Acho que sou o homem da tua vida. E acho que és a mulher da minha’. Tenho saudades. Sim, tuas.




(há coisas tão mais importantes do que um amor pequenino, vou pensar nelas durante um bocado, até já)