em coimbra as lágrimas tem uma quinta e as saudades canções,

De noite há o escuro e no escuro é difícil encontrar o que faz bem ao coração. Às vezes no cansaço fecha-se um pouco os olhos e ao abri-los de novo já se perdeu alguém. Nunca se deve fechar janelas àqueles que nos aquecem por dentro. Mas os fins aproximam-se - devagar e em silêncio - passam o rio de histórias, atravessam as ruas que são tão nossas e corrompem aquilo que devia durar. Semeiam a saudade sem querer saber se dói muito ou pouco. Dói muito. Quando o ciclo dá uma volta completa só se vê o azul, molhado do sal das lágrimas que choramos copiosamente, por entre rodas e carroçarias, embalados pela despedida. Anos mais tarde estará tudo confinado a uma caixa que não deverá jamais ser aberta - recordar custa. Habituei-me a adormecer e a acordar contigo. Todos os dias. Sempre. Os dias atropelam-se na pressa de chegar ao tal ponto final, apesar de ninguém querer deixar a cidade a que passámos a chamar lar, casa. Por muito utópico que seja, a família de que nos falaram quando ainda acreditávamos em contos de fadas parece  de novo possível. E eu não a quero deixar - a minha família. Espreitamos pelo buraco da fechadura e vemos o adeus. Não temos outra alternativa senão abrir a porta. E assim se foram os melhores anos das nossas vidas. 

Habituei-me a adormecer e a acordar contigo, Coimbra. Todos os dias. Sempre.

sol tão meu,

Sempre fui uma pessoa de dores, uma pessoa de sofrer. Nunca foi intencional, acho apenas que me dava uma espécie de propósito, ainda que propósito não seja a palavra mais adequada. You can get addicted to a certain kind of sadness, era mais ou menos isso. Habituei-me a ter de esperar, fosse por um beijo antes de adormecer, por um abraço num dia frio ou por um simples gosto de ti. Tinha de esperar sempre, era assim que estava estipulado. O amor, ainda que algo muito abstrato, tinha um quê de rigor, quase como um relógio, pelo menos para mim. E esse amor passava por esperar. Porque quando vale mesmo a pena, não custa esperar, certo? Era assim, era assim o mundo de uma outra Inês, uma outra Inês que se perdeu algures por aí. The girl who waited. Nem dei por ela a ir, nem dei por esse pedaço a desaparecer. Um dia olhei pela janela e não fui capaz de ver amor, não fui capaz de acreditar em finais felizes. Os finais felizes eram uma utopia ridícula criada apenas para vender livros e filmes. Sim, um dia olhei pela janela e não fui capaz de ver amor. O tal das borboletas e dos corações a saltar batidas. Fez-me mais sentido que tudo tivesse um prazo de validade. Ainda hoje é assim, ainda hoje acredito em fins e não em finais felizes. Deixei de acreditar em muita coisa porque percebi que se não acreditares que existe um chão, não te custa tanto quando ele desaparece debaixo dos teus pés. Um dia vou apaixonar-me pela pessoa certa era o pacote de açúcar que estava na parede do meu quarto e que, quando me despedi do número doze no largo das letras, não quis levar comigo para o meu novo esconderijo. O amor já não estava nos planos. É, a verdade é que o amor já não estava nos meus planos quando setembro acabou, quando certo dia te conheci. E agora? Agora... Seja pelo beijo antes de adormecer, pelo abraço quando está mais frio ou pelo gosto de ti de todos os dias, a verdade é que a felicidade passa por ti, meu amor.

demasiados amanhãs,

Com ele tinha entrelaçado dedos, corações, mundos. Sem medos, sem amanhãs.
Nessa noite, passeava-se pelas ruas da sua cidade natal - ainda que lá não tivesse nascido - sob as luzes que tanto a fascinavam. Fazia-se pequenina para se sentir mais quente, dentro do seu grande casaco, os headphones aqueciam-lhe as orelhas e achou por bem aconchegar-se de maneira a que o cachecol lhe tapasse o nariz. Era uma noite fria. Preferia ter ficado em casa, no calor da sua lareira, com um bom chocolate quente e a ver comédias românticas na televisão, por muito cliché que tudo isso fosse. Mas ele pedira-lhe que viesse e ela não aprendera ainda a dizer-lhe que não. ‘Preciso de ti, vou precisar sempre de ti’, dissera-lhe ele, certa vez. Ela detestava sempres e nuncas. Detestava amanhãs e a crença de que tudo se viria a resolver, eventualmente. Os hojes eram apenas antigos amanhãs cujo prazo de validade tinha expirado. I said, I can't quit you, babe/I guess I got to put you down for a while/Said, you messed up my happy home. Raios, tinha de ter cuidado com as canções que o leitor de música lhe oferecia. A última coisa de que precisava era de estar carregada de nostalgia e saudade quando se encontrasse com ele. A última coisa de que precisava era encontrar-se com ele. Ao longe viu um vulto, mais um vulto, que a princípio não reconheceu. Não o via há tanto tempo. Exceto nos sonhos, em sonhos encontrava-se com ele quase todas as noites, para ver as estrelas. E por momentos sentiu-se ainda mais pequenina. Teve medo. Teve medo como não tinha há muito tempo. Deixou-se estar, não soube ir ter com ele.
Veio ele ter com ela. E que estranho foi. A princípio não soube equacionar as palavras e as respirações. Entretanto percebeu que era ele, que ainda existia um pouco dele naquela sombra, e deixou-se ser. Ele não lhe queria dar hojes porque não lhe podia prometer amanhãs. Já a devia conhecer, já devia saber que a ela lhe bastavam os primeiros. Mas ele acreditava que se podia chegar ao fim do dia e ainda amar. Ela não sabia se o fim do dia chegaria por isso amava desde que acordava até ao possível adormecer. E às vezes até em sonhos. Muitas vezes até em sonhos. Não se achava no direito de lho pedir mas a verdade é que queria que ela esperasse. Ela disse-lhe que ele não sabia, que ele não tinha como saber, se ainda existiria amor findado o prazo. Que o amava naquele preciso momento mas que não sabia se o amaria amanhã ou noutros amanhãs mais longínquos. As palavras dela pouco efeito tiveram nele. Por fim desistiu, pedindo-lhe apenas que, quando o sentimento desaparecesse, lhe dissesse, para que ela não ficasse à espera de amanhãs que não chegariam. ‘Se’, disse-lhe ele. ‘Não é um se, é um quando’. ‘Se’, repetiu ele. ‘Quando’. ‘Olha para mim’. Bem tentou mas não encontrou forças. Ele, com uma determinação que lhe era caraterística, segurou-lhe no rosto e, concentrando todas as suas certezas numa única palavra, sussurrou-lhe um ‘Se’, para depois lhe beijar os lábios uma última vez.
Ela ficou à espera, sem se aperceber que, com o tempo, ele já não esperava, de facto, que ela esperasse. Até que o dia, o dia em que voltariam a ser juntos, chegou. Mas já não haviam portas abertas, esperanças ou mesmo amor. Nenhum dos dois deu pelo prazo a findar, pelo dia a chegar. E então, uma pergunta vinda de alguém, uma espécie de cotovelada no coração, ‘E agora? O que é que acontece? Não foi disto que estiveste à espera?’. Ela sorriu, relembrando uma Inês, a milhões de anos-luz de si, ingénua e apaixonada dos pés à cabeça, que tinha conseguido acreditar que voltariam a ser juntos. Pateta. Ela bem que ficou à espera mas, quando o amanhã chegou e o prazo findou, já não acreditava em finais felizes. E o último beijo acabou por se revelar mesmo o último. Já não haviam portas abertas, esperanças ou mesmo amor.

O medo de sonhar é uma coisa terrível. Mas não podes ficar acordada para sempre.