dias de luta, dias de glória,


À sombra de um salgueiro cansado, uma sombra descalça. Uma sombra, um alguém, um ninguém. Uma tentativa frustrada de trazer Agosto a um já castanho e frio Outono.
"Dizem que me perdi, que já não sou quem era. Como poderia ser ainda a mesma de ontem? Demasiado mudou. Demasiado mudou sem que eu o pudesse impedir. Há demasiadas coisas que continuo sem entender, que não me fazem sentido. Vi um todo a separar-se, a seguir caminhos distintos. Dou por mim numa cidade estranha sem quaisquer memórias, sem quaisquer constantes do passado. As ruas não estão cheias de recordações. Não sorrio a olhar para este ou aquele edifício, não me lembram história alguma. É preciso força para deixar tudo e começar de novo. E eu nunca fui forte. Ainda mais sozinha. Mas consigo esquecer - não, esquecer não, não pensar -, consigo encontrar algum calor nestas pedras gastas, consigo sentir algum aconchego vindo destes rostos desconhecidos. Há qualquer coisa de familiar, como se parte de mim pertencesse aqui.
Hoje, numa aula, pediram-nos que descobríssemos quem foi, quem era, pouco importa, a deusa Héstia ou Vesta. Inconscientemente, peguei no telemóvel para to perguntar. A acção perdeu-se a meio. Não, ainda não apaguei o teu número. Não, ainda não consegui aceitar a tua morte. E não, ainda não entendo o porquê da mesma. Héstia passa assim - pelo menos para mim - a ser a deusa da saudade. E não há livro de mitologia que me convença do contrário.
What about you? Sempre fui apologista de que os opostos se atraem. Nunca pensei que o mesmo acontecesse com os semelhantes. Nem tão pouco achei possível conhecer alguém com tanto de mim. E eu, que, regra geral, não gosto de mim, gosto de ti. Imenso, para dizer a verdade. Talvez até demasiado. Não consegui até agora encontrar um defeito que fosse em ti. Isso assusta-me, confesso. Tenho medo que o tiro me saia ao lado, que sejas o total oposto daquilo que te tens mostrado. Não seria a primeira vez que me enganavam. Mas acabo por ter uma certeza, que nem sei bem de onde vem, que me diz que este és mesmo tu, que não virão desilusões ou desgostos estragar estes dias risonhos. What you see is what you get. Como poderias ser outro se me soas tão genuíno? E é tudo tão fácil contigo. Costumo medir cada palavra e estudar cada gesto. Faço um esforço incrível por mostrar o melhor de mim. Sempre fui assim com todos. Contigo não. Desligo o filtro e limito-me a ser eu, as palavras fluem naturalmente e nunca me falham. Não sei bem o que se passa. É diferente de tudo o que já vivi, foge ao padrão de todas as minhas experiências. Agrada-me. Muito. Suspiro."
E fica o salgueiro, fica a sombra descalça - um alguém, um ninguém -, fica a saudade. E um já castanho e frio outono, que desejo algum de Agosto consegue levar.
I told I you I was a good dancer. Can I keep you?
(Ainda acordo a meio da noite, a precisar de um abraço teu.)

Coimbra,

Home, at last. A cidade abraça-me sem querer saber o meu nome. Sou uma estranha nestas ruas e ainda assim sinto-me aconchegada. É tão fácil ser eu. Não preciso de disfarces, não tenho de esconder quem sou. Posso esquecer o passado. Posso esquecer qualquer erro que tenha cometido. Posso esquecer em quantos pedaços me partiram o coração. Posso esquecer quem fui. Essa rapariga ficou para trás. Numa outra cidade, em outras ruas, que já nada tinha para me dar. Que já não me queria. Tenho medo que também não me queiram aqui. As primeiras impressões desvanecem-se como fumo à medida que a personalidade vem ao de cima. E eu não sou uma pessoa fácil. De todo. As minhas múltiplas personalidades são uma chatice. E o facto de ser um copo prestes a transbordar, uma bomba prestes a explodir a qualquer momento, também não ajuda. Tic tac, tic tac. Anyway, what was I saying? Oh, that's right. Home, at last.
(De qualquer forma tenho saudades vossas. Terei sempre.)

the funeral,

Eras como uma droga, uma toxina que me consumia a pouco e pouco. E eu sabia-o, sentia-o. Doía. Mas eu fazia de conta que estava tudo bem. Durante quatro curtos anos foste a razão para os meus sorrisos e também para as minhas lágrimas. Foste o herói dos meus sonhos e o vilão dos meus pesadelos. Foste. Já não és. O oxímoro perfeito, um completo paradoxo. Dizes que não és capaz de me perdoar por algo que nem sei o que é. Se não mo dizes é porque eu também não o deveria querer saber. Merecia mais de ti. Preocupo-me demais contigo. Tudo sempre foi demasiado. Mas demasiado sempre me pareceu certo. Dás-me cabo do juízo, da sanidade, entendes? Estragas tudo e ainda me consegues convencer de que fui eu que errei. O meu mal é gostar tanto de ti, diabo. Dizes que me queres fora da tua vida e eu ainda te pergunto se tens como saber onde foste colocado, porque senão eu posso fazer-te o jeitinho. Chega, chega, chega. E que raio vou fazer com uma pasta que tem cento e sessenta e uma músicas que me pediste ao longo do verão? E a um pacote d'a vida é bela que ias gastar comigo? E a todas as fotos em que me abraças? E às memórias, às recordações? Diz-me o que devo fazer com as promessas que nunca irás cumprir. Foste tu quem deu o primeiro passo para longe de nós. Só não conseguiste suportar que não corresse atrás de ti. Parece que o para sempre que me juraste não durou assim tanto.

Acabou-se Inês, eu não te quero falar mais.
(Inês pateta. E o pior vão ser as saudades.)