o passado,

Parece estranho que ao tropeçar numa caixa cheia de folhas soltas se vá de encontro a toda uma outra vida, a toda uma outra existência que parece tão distante que, pensamos, decerto nunca nos pertenceu. Não reconheço os momentos descritos em tais páginas nem tão pouco a caligrafia desastrada. Até que reparo melhor, tiro por momentos o meu chapéu revestido de superioridade e idade e tento ver, mas ver mesmo, procurar algo que me faça entender que palavras estranhas são essas. E é aí que, ao ver, mas ver mesmo, começo a reconhecer algumas coisas. Um ou outro pensamento, uma ou outra personagem, um ou outro sentimento. Entendo por fim. Sou eu, sou eu que estou perdida nesta caixa cheia de folhas soltas. Não, não sou eu mas sim quem eu já fui. E, de repente, bate uma dor cá dentro. Uma dor tão grande. Nunca me tinha apercebido de tudo o que tinha guardado, escondido. Já não me lembrava, já não me queria lembrar que pessoas que hoje passam por mim e não dizem nada, em tempos me fizeram juras eternas, me prometeram que estariam sempre presentes e que nada, nada nos iria separar. Retorno à frase já gasta, estou farta de promessas e de falsas esperanças, porque é que não podemos todos voltar a ser crianças? Parece impossível, é impensável sugerir sequer que tais pessoas já foram parte de mim. Não, de mim não, daquele eu que agora está perdido na tal caixa, cheia de folhas soltas. É engraçado que se possa tropeçar assim numa outra vida, numa outra existência. E ficam no ar as tuas perguntas. 'Porque é que as coisas mudaram? Estão melhor ou pior?' e a única certeza que tenho é de que não possuo a resposta a tal pergunta, se é que possuo alguma resposta. Já nem me lembrava do significado da palavra saudade, mas não creio que me volte a esquecer. É, uma vez aberto o armário das recordações e das memórias torna-se difícil fechá-lo. E a verdade é que sinto saudades. Minhas, tuas, vossas, nossas.

15 comentários:

  1. O teu toque caracteristico nunca fica gasto.
    "...porque é que não podemos todos voltar a ser crianças ?"
    perfect ^^

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  2. Adorei :)
    «É , uma vez aberta o armário das recordações e das memórias torna-se difícil fechá-lo .» Mais do que verdade.
    Beijinhos

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  3. Tal e qual.
    Vivo essas saudades todos os dias.
    E sinceramente, vivo-a com um sorriso.
    Se não fosse feita de saudades, de alegrias, tristezas, desejos e paixões, força e coragem era feita de quê? Plástico..?
    Adorei Inês. :)
    Beijinhos*

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  4. é mesmo estranho quando reencontramos o nosso passado. é como se a pessoa que outrora escreveu aquelas linhas já não existisse ou nunca tivesse existido, para nós. também já senti isso e as saudades.

    é uma honra Inês :)
    um beijinho :*

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  5. estava noutro mail, desculpa Inês *

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  6. Fizeste-me arrepiar '$
    Gostei muito Inês , já tinha saudades .
    Adoro-te garota .

    P.S. A nova foto do blog tambem é da minha autoria x)

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  7. Ineees? gostei do texto...

    escreves muito bem... :)

    Adoro-te

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  8. "Já não me lembrava , já não me queria lembrar que pessoas que hoje passam por mim e não dizem nada"

    Desculpa...

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  9. Todos nós passamos por isto. Amigos que antes tão próximoas agora distantes como o outro lado do oceano. A saudade é imensa.

    Obrigado, mas um amigo pôs-me o leitor ;)

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  10. Eu cá gostei.

    ''O Passado: é o Futuro, usado.''

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  11. Não acredito que reagisses bem.

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  12. João Maria , a bést3 de junho de 2009 às 12:54

    Lembras-te?

    Talvez nunca te tenhas lembrado de te lembrar do que ficou para trás.

    Guardas-te? Escondes-te? Enquanto esqueces-te não sofres-te.

    “E, de repente, bate uma dor cá dentro. Uma dor tão grande.”

    Tropeças-te, fechas os olhos e consegues encontrar os registos daquele momento.

    Sofres-te?

    Já passou, são só palavras, recordações.

    Saudades?

    Realidade estranha.

    Permanecem as minhas perguntas.

    - Porque é que as coisas mudaram? Estão melhor ou pior?

    Uma caixa cheia de folhas soltas!

    É tudo o que resta?

    “Porque é que não podemos todos voltar a ser crianças?”

    Onde está a caixa cheia de cores, desenhos de papel, toda aquela magia onde a escondemos? Não te lembras?

    Confuso.



    Lembra-te.

    Minhas, tuas, vossas, nossas.



    p.s. Já tinha saudades.

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  13. Oh que texto bonito (:
    As recordações conseguem fazer-nos viajar a um passado que um dia foi nosso e hoje passa a nosso lado como perfeito desconhecido.

    Beijo*

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